"Nem uma pálida luz nas janelas, nem um reflexo desmaiado nas fachadas, o que ali estava não era uma cidade, era uma extensa massa de alcatrão que ao arrefecer se moldara a si mesma em forma de prédios, telhados, chaminés, morto tudo, apagado tudo."
Saturday, November 07, 2009
Não afastes os teus olhos dos meus.
Quando dormes E te esqueces O que vês Tu quem és Quando eu voltar O que vais dizer? Vou sentar no meu lugar
Adeus Nao afastes os teus olhos dos meus Isolar para sempre este tempo É tudo o que tenho para dar
Quando acordas Porque quem chamas tu? Vou esperar Eu vou ficar Nos teus braços Eu vou conseguir fixar O teu ar A tua surpresa
Adeus Não afastes os teus olhos dos meus Eu vou agarrar este tempo E nunca mais largar
Adeus Não afastes os teus braços dos meus Vou ficar para sempre neste tempo Eu vou, vou conseguir para-lo Vou conseguir para-lo
Vou conseguir
Adeus Não afastes os teus olhos dos meus Vou ficar para sempre neste tempo Eu vou conseguir para-lo Eu vou conseguir guarda-lo Eu vou conseguir ficar
Precisam-se mais intervenções. Venham elas. Diversão, entretenimento, cultura, mundos novos carregados de possibilidade. O quotidiano tem tanto potencial :D
O teu corpo ainda tão quente – barro, a tua Bíblia diz que agora és barro, essa ideia devia confortar-me mas eu não sou crente. Arranhei a tua mão – se ao menos uma gota de ti pudesse ainda escapar da tua morte para a minha vida, irmanar-nos num pacto de sangue, com a leviandade valente das crianças. O calor que subia ainda da tua pele – não seria o teu desejo do meu sangue? Compreendi finalmente o nosso velho Camilo; quis profanar-te – se é que esse verbo pode dizer a urgência de te romper a pele para a incendiar com a dor da vida, de te ressuscitar com beijos ou atravessar contigo o túnel húmido da morte.
Foi no cinema, lembras-te? Les Parapluies de Cherbourg, um filme deslumbrantemente kitsch – tinha que ser. Entraste tarde, surgiste-me nas últimas golfadas da musica de Michel Legrand, já eu estava a instalar-me na delícia das lágrimas. Os filmes trágico-corriqueiros eram a minha purga semestral. Apagava os fusíveis cerebrais, chorava na escuridão, como uma menina, e saia limpo e luzidio. Entraste tarde, caíste, ofegante, na cadeira ao meu lado. Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me, sim, do odor do teu corpo, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. Talvez trouxesses ainda o cheiro de algum dos teus amantes – eras uma verdadeira Torre do Tombo passional, e estavas sempre disposta a ir repescar uns dados esquecidos a uma pasta antiga.
Mas nessa altura eu nem sequer sabia isso. E nunca me aproximara tanto do teu corpo. O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Sentia uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.
E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir. Um dia confessei-te que tinha insónias. Terei chegado a explicar-te que as Variações Goldberg de Bach nasceram de um pedido do conde Kaiserling, que lhe solicitara um tratamento para as insónias? E que por isso Bach escreveu as variações de acordo com uma receita que exigia «uma invariabilidade constante da harmonia fundamental»? Conversávamos pela noite dentro em tua casa, tu já mal conseguias manter as pálpebras levantadas. Pedi-te que me deixasses ficar mais um bocadinho, porque me custava entrar em casa sem sono. Pegaste-me na mão
- anda comigo
e levaste-me para a cama. Enroscaste-te em mim e começas-te a coçar-me as costas, muito devagar. Dormimos muita e muitas vezes assim – e nunca, nem por um segundo, pensamos em fazer aquilo a que os inocentes chamam sexo. Falávamos muito disso, sim – desse acto a que as pessoas vão chamando sexo ou amor consoante as conveniências e as circunstancias. Esse acto que as pessoas vão repetindo até à mais exaustiva solidão. Nós não podíamos prescindir um do outro. Não podíamos entrar no infinito jogo finito do corpo. Derramei sobre a tua vida, por incontáveis noites os meus breves amores perfeitos, pormenor a pormenor. E tu derramaste sobre a minha as tuas paixões impossíveis de apagar. Desejo-te tanto, ainda.
Deito-me nos lençóis escuros de uma cama desfeita; neles existem estrelas, como existem no céu; movida pela brisa marinha que chega não sei de que lugar, a música toca baixinho nos meus ouvidos, como se fosse eu, que por dentro a tocasse; em suaves, leves pés descalços, danço. É impossível não dançar. Asas imensas rasgam o espaço pintado nas curvas das minhas pálpebras. Rodopiam, indistintas e brilhantes; incontornáveis anfitriãs. Os braços soltos; perdem-se os dedos na espera do sal, do banho das ondas que dão à costa do Sonho; a ilha deserta em que durmo, vivo, a qual não pretendo deixar. Tinha um vestido vermelho e no cabelo estrelas do mar.