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Tuesday, June 10, 2008
"sol que nos cega. Acabei de atravessar uma ponte e passo por um corredor que, parado na berma da estrada, com as mãos apoiadas nos joelhos dobrados, perdeu o controlo da respiração. O ar, como pedra, entra e sai dentro dele, o mundo entra e sai dentro dele. Fecha os olhos e contrai o rosto inteiro. A pouca distância, há pessoas que não se aproximam mais e que o olham, amedrontadas. Eu não paro, não paro. O sol espeta-me agulhas nos olhos: agulhas feitas de linhas de luz. Mas continuo sempre, continuo sempre, continuo"
Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto
continuo a querer deixar-me levar por alguma coisa que me leve.Monday, February 04, 2008
Lolita.

"Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita."
E, finalmente, tenho um livro a voar-me das mãos.
Chocante, mas... a descobrir.
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Monday, August 20, 2007
a memória... J. L. P.
"Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa. O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento."
Cemitério de Pianos
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto
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Sunday, July 29, 2007
A Casa Dos Espíritos - Isabel Allende
"Viajei mais de trinta horas sem parar nem para comer, esquecido até da sede, mas consegui chegar a casa da família del Valle antes do funeral. Dizem que entrei em casa coberto de pó, sem chapéu, sujo e barbudo, com sede e furioso, perguntando aos gritos pela minha noiva. A pequena Clara, que então era apenas uma menina magra e feia, veio ao meu encontro quando entrei no pátio, pegou-me na mão e levou-me silenciosamente à sala de jantar. Estava ali Rosa, entre as pregas brancas de cetim no caixão branco, conservada intacta três dias depois de morrer, e mil vezes mais bela do que eu me lembrava, porque Rosa na morte tinha-se transformado subtilmente na sereia que sempre fora em segredo." "Severo del Valle e os filhos mais velhos levaram aos ombros o ataúde branco de Rosa com rebites de prata, e eles próprios o colocaram no nicho aberto do mausoléu. Iam de luto, silenciosos e sem lágrimas, como corresponde às normas de tristeza num país habituado à dignidade da dor."
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Friday, June 08, 2007
Cemitério de Pianos - JLP
"Ela tinha os cabelos apanhados num laço, era uma menina e, no seu rosto, havia qualquer milagre: pureza: que eu não sabia descrever. Os olhos grandes: o céu. Se estivesse suficientemente perto, acredito que poderia ter visto pássaros a planarem dentro dos seus olhos, seria um mês da primavera dentro dos seus olhos: infinito."
Recomecei a lê-lo à dois dias atrás. E agora, sem mais leituras em mão, deixei-me viciar completamente na escrita sedutora de José Luís Peixoto. Do melhor que li até hoje dele.
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