"Nem uma pálida luz nas janelas, nem um reflexo desmaiado nas fachadas, o que ali estava não era uma cidade, era uma extensa massa de alcatrão que ao arrefecer se moldara a si mesma em forma de prédios, telhados, chaminés, morto tudo, apagado tudo."
Sunday, August 24, 2008
David Fonseca
Passada quinta-feira fui a Esposende ver o concerto (grátis) ao ar livre do Sr. David Fonseca. Conheço as músicas de as ouvir pelo rádio e principalmente pela televisão, quando ele ainda ia aparecendo. Agora tenho a sensação que isso já não acontece.
De qualquer maneira, David Fonseca, nunca foi um artista que me passasse pela cabeça pagar para ver actuar, agora, talvez até considere não seja o preço do bilhete muito caro.
Acho que tocou todos os hits apesar de só reconhecer metade deles. Anyways, o Sr. tem grande presença em palco, canta afinadinho, conversa constantemente com o público, acompanha o espectáculo musical com projecções num ecrã gigante semi circular que fica acima dos músicos e possibilita que toda a gente veja parte do espectáculo mesmo que tenha um gigante à sua frente. Para além disso, intercala os originais com covers que lhe assentam como uma luva. A Song to the Siren fica quase ou ainda mais deliciosa na voz dele.
o clip não é o melhor mas é dessa noite
Além de tudo, tem um conjunto de pequenos adereços que coadjuvam os cenários imaginários das músicas e lhes dão um toque mais especial.
Superstars, Rocket Man, Someone That Cannot Love, Kiss Me Oh Kiss Me, The 80's, Angel Song, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus, Who Are you, Our Hearts Will Beat As One, I Can See The World Through You, 4th Chance, Video Killed The Radio Star, foram algumas das que se ouviram essa noite. (se não me engano, a memória is a tricky business)
Vale a pena ouvir e ver David Fonseca e a sua Banda.
Superstars
4th Chance
Rocket Man
Someone That Cannot Love
Ver as famílias, os casais de jovens e de casados, as crianças pela mão, os corpos a balançarem, as pessoas empoleiradas nas varandas com os circulos coloridos das luzes projectadas nos rostos, é de várias formas mágico. É inevitável não fechar os olhos e saborear a brisa na pele.
Está prestes a dar entrada um novo fim de semana, e eu, continuo aqui, absorta em mil pensamentos, a orientar-me por entre inúmeros lugares que só existem dentro da minha cabeça, a ser levada pela brisa da minha imaginação, como se fosse um pedacinho brilhante e leve de tecido ao vento.
O caminho das minhas divagões levou-me aqui.
"My name is Brandon Boyd. I am a Los Angeles native, a Vegan sympathizer, an artist by day and come nightfall I sing in a band called Incubus. I am suspicious of religion, advertising and know-it-alls. My teeth will one day fall out from overconsumption of licorice. My closest friend on the Earth is a dog from France. I sleep diagonally until I have company, then I sleep lengthwise. I am straight, yet I adore sparkling mineral water. I have a bionic right leg as a result of a freak gardening accident. My right eye goes lazy after about 3am. If you feed me after midnight, I multiply. My name, when translated literally, means 'Broom-Hill' which I find horrifyingly exotic. I live in an old building that at one point in the 1900's was a working brothel. As a result, the ghosts of under paid and over worked prostitutes roam my hallways. So, there is a lingering smell of cheap perfume on the second story of my home after 3am, which might explain my occasional lazy eye. I am allergic to milk and as a result have never had an ice cream party. You may have just heard the sounds of very small violins playing behind that last comment, but don't feel bad for me; I have sorbet parties at every Equinox and spend about half a day thereafter happily cleaning the 'sticky' out of my fingernails. My right knee is named Chet and my left is Garrison. Everything I wear once belonged to someone else with the specific exception of socks and underpants."
Apesar do pseudo boicote, intencional ou não, por parte da organização da escola, com excepção do Professor Tarso, o concerto saiu atrasadérrimo, mas saiu. E apesar das bandas terem tido de reduzir as suas actuações a meramente três músicas cada. Puta que pariu, amiguinhos. Aquilo só não veio abaixo porque porque... :D
Parabéns às bandas pela perseverança, pela dedicação, o não terem arredado pé (e isto vale também para a malta que por lá ficou à espera para ver) e acima de tudo não terem perdido a cabeça com os batatas que lá estavam a menosprezar o trabalho e o talento daquela gente toda. Isto devia era ter sido gravado e não fotografado, porque só vendo é que dá para acreditar no ambiente que inundou aquele pavilhão durante aquela abençoada horinha.
A malta estava lá toda para Nightwish. Foi uma loucura, o pessoal estava mesmo mesmo mesmo entusiasmado. Curiosamente a Annette ao vivo consegue ter um desempenho bastante aceitável, tirando alguns desafinanços e ter morto a The Siren e a Dead To The World, houve outras que conseguiu dar a volta razoavelmente. Ela é extremamente simpática e não podia ter sido melhor recebida, notava-se a satisfação da banda, um estado de espírito que infelizmente já não estava presente no último concerto deles cá com a Tarja. Abraçaram-se montes de vezes, estavam mesmo carinhosos uns com os outros. Vou deixar aqui alguns vídeos que algum dos muitos telemoveis e maquinas de filmar/fotografar que lá estavam gravaram. Nos videos nota-se bem o que ela consegue e não cantar. Não é que cante mal, mas pronto, não é a mesma coisa definitivamente. A energia caracteristica ainda lá está, é pena é ser quebrada pela senhora, mas é o que há. No geral até foi uma noite muito agradável, tinha saudades dos senhores. Pena, pena foi Pain ter tocado tão pouquinho e ter havido tão pouca adesão. A voz do senhor Peter é mesmo algo ó pró espectacular.
António Variações, barbeiro de profissão, músico por devoção.
Este homem foi provavelmente o meu primeiro amor musical. Um amor que se mantem devoto até hoje. Este homem foi (ou deverei dizer é?) um génio. Morto quatro anos antes de eu nascer, poucos anos depois de estar viva conheci-o não me lembro com exactidão como, lembro-me de estar com a minha mãe numa discoteca (que desapareceu pouco tempo depois de abrir) a tentar escolher uma k7 que fosse recente de alguma das bandas portuguesas preferidas da minha prima para lha enviar para a Holanda. Ora, sem me lembrar exactamente de todos os pormenores (mesmo porque era uma fedelhita muito pequenina) lembro-me do senhor nos estar a pôr as k7's num dos leitores e a dar-nos os head phones para as mãos e lembro-me de escutar o som que saía dos dele, Variações. Ao fim de tanta audição musical e tão variada, curiosa, quis ouvir o que o senhor ouvia e é claro que acabamos por sair de lá com uma k7 para a minha prima, e três para mim: António Variações, Santos e Pecadores e Delfins. Lembro-me perfeitamente de ir no Twingo da minha mãe para a escola primária a cantar António Variações e de até gostar de ficar presa na passagem de nível só para ouvir mais um bocadinho. É interessante não é? A "O Corpo é Que Paga" deve ter sido o meu primeiro amor, logo seguida da "É Pr'Amanhã", eram as que eu percebia melhor a letra talvez, lembro-me que adorava a parte das unhas na "O Corpo é Que Paga", eu roía as minhas bastante, então achava graça ao que ele dizia.
Fui crescendo, ouvindo com mais atenção as letras das músicas, fui ganhando cada vez mais respeito e admiração pelo senhor, e só lamento que ele não tenha ficado entre nós mais tempo para viver um pouquinho mais a sua vida musical. O que nos deixou não foi muito mas vale, definitivamente, muito a pena e é valiosíssimo.
Este homem excêntrico, de maneiras demasiado europeias para um Portugal tão pequenino, trabalhador, apaixonado, aventureiro e dedicado, fez de tudo nesta vida e percorreu muitos e muitos palmos de terra. Este espírito livre buscava sagazmente a plenitude, o equilíbrio interior, através da experiência, fosse ela dolorosa ou não, em tentativas incansáveis de testar os seus limites, que seriam, em último, os de toda a gente. Transgressor, ousado, irreverente, abriu em Portugal o primeiro cabeleireiro unisexo de Lisboa, onde começou a dar nas vistas pela sua forma vanguardista de vestir. Este foi um homem privilegiado que via para além do seu tempo.
O homem que estava além, sempre insatisfeito e ansioso sobre o quê e quem vinha a seguir, não permitiu nunca que os seus dias passassem de forma sempre igual, tendo finalmente decidido retornar a Portugal e transmitir a sua filosofia de vida ao resto do seu povo, numa tentativa de dar e receber, sem nada ganhar e nada perder. Esta sua forma de encarar a vida e de escrever as suas músicas, sempre assentes sobre a sua larga vivência, pode não ter sido imediatamente compreendida por todos, mas assim quis o destino que a sua música perdurasse, fosse mantida e cuidada por sangue antigo e novo, de quem desde o primeiro momento compreendeu e apreciou em pleno a sua arte e mensagem, para que agora, todos nós, mais de 20 anos depois do seu desaparecimento o possamos fazer também.
Poderia algum outro nome assentar tão bem neste homem quanto Variações? Humilde, verdadeiro e original este homem é uma figura incontornável do panorama cultural português. Para o próprio a sua música caminhava algures por entre a Sé de Braga e Nova Iorque, reuniu o folclore, os sons cosmopolitas do rock, o pop, os blues e o fado, enlaçou-os na sua voz e cantou-os tal e qual como brotavam de dentro de si. Foi já, no hospital, nos últimos tempos da sua vida que ouviu pela primeira e última vez uma música sua na rádio.
"Tenho pena de morrer, mas não medo. Tudo o que acaba me deprime. Mais pelo fim do que pelo acto em si." - António Variações, poucas semanas antes de morrer.
É Pra Amanhã:
Canção de Engate:
Homenagens que valem a pena ouvir:
Toranja:
E não é que até o FF lhe fez uma homenagem num dos seus concertos?